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17/09/2021

Setembro Amarelo: Agir salva vidas!

Mês de prevenção ao suicídio

Setembro Amarelo: Agir salva vidas! - Notícias - Arquidiocese de Goiânia

Desde 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria, em parceria com o Conselho Federal de Medicina, promove a Campanha “Setembro Amarelo”, que tem como objetivo principal a prevenção ao suicídio. No Brasil, são registrados mais de 13 mil casos de suicídio todos os anos e, no mundo, esse número sobe para mais de 1 milhão. Apesar do tema delicado, é muito importante falar sobre isso, entender e saber a forma correta de ajudar. Para explicar mais sobre o assunto, entrevistamos a psiquiatra, doutora Ana Caroline Vilela.

 

Doutora, por que é tão importante falarmos sobre este tema?
A nossa grande luta é pela simples razão de que é possível prevenir. Sabemos que se a pessoa se tratar, tiver oportunidade de buscar um profissional, conversar com alguém sobre isso, ela pode mudar de ideia e dar mais uma chance para a sua vida. Às vezes, a pessoa acha que ela não tem mais saída, só que é uma distorção da realidade que a depressão causa nela. Por isso, nós precisamos abordar esse assunto, divulgar mais que a tentativa de suicídio. A suicidabilidade é uma emergência psiquiátrica, uma emergência da saúde mental que precisamos alcançar mais pessoas antes que aconteça.

 

 

A depressão é um indício muito forte que pode levar ao suicídio?Dr.  Ana Caroline Vilela.
Com certeza. As pessoas que se suicidam estão depressivas. Existem várias formas de se ter depressão, não é só tristeza. Existem outros critérios diagnósticos para depressão. Por exemplo, tem pessoa depressiva cujo sintoma principal é a falta de prazer nas atividades que ela tinha. A pessoa gostava de sair com os amigos e agora não gosta mais. Ela gostava de cuidar das plantas e agora não gosta. Ela deixou de fazer as coisas que gostava, foi desanimando. Nem sempre a pessoa precisar chorar ou estar triste para ter um diagnóstico de depressão.

 

Muitos acreditam que para as pessoas se suicidarem precisam passar por algumas fases que todo mundo passa para cometer isso. Ela tem que estar na depressão grave e naquela depressão de choro, de evidente sofrimento, de tristeza. Só que tem gente que estará trabalhando, chegará à noite e vai se suicidar. Tem gente que estará na faculdade e vai se suicidar. Depois todo mundo vai falar: “Nossa, mas a pessoa nem estava triste”. É porque a tristeza é um sintoma depressivo. Tem a falta de prazer, a desatenção, a falta de esperança, o sentimento de culpa, o cansaço excessivo. Existem vários outros sintomas depressivos.

 

Existem sinais visíveis que os pais ou as pessoas mais próximas devem estar atentas?
Se observarmos, é quando a pessoa muda o jeito dela. O normal da vida é sermos felizes, é estarmos sorrindo. Claro que nem sempre vai ser assim. Você pode, às vezes, ficar triste, pode passar alguns dias chateado. Mas, no geral, esses sintomas melhoram ao longo do tempo e, também, dependendo da mudança de ambiente. Então, a pessoa está muito mal, que está, por exemplo, pensando em se suicidar. Ela não vai não vai apresentar melhoras, mesmo se eu a trocar de ambiente.

 

Outro dado importante são as frases de alarme: “eu sou um peso. Eu só dou trabalho na minha família. Seria melhor que eu não existisse”. Todas essas frases que levam a pessoa a imaginar que ela tem uma culpa do sofrimento dos outros, que é um peso na vida das pessoas, é um dos mais alarmantes sintomas que pode ter. É claro que além de culpa a pessoa também pode ter o sentimento de menos-valia e fala coisas desse sentido. Por exemplo, “eu não presto. Eu não dou conta de nada. Tudo que eu faço é errado”. Então, culpa e menos-valia são temáticas importantes para se prestar atenção quando a pessoa está pensando em suicídio.
 

Outra temática importantíssima é a falta de esperança. A pessoa fala que não tem mais jeito, não adianta fazer mais nada: “Já fiz tantas coisas e não melhorou. Já fui em tantos médicos”. Ela fica com esse discurso de que não tem mais o que fazer, não tem mais esperança.

 

A pessoa com depressão precisa ser ouvida, ser acolhida. É muito importante o acolhimento do sentimento, da situação, de ela se sentir acolhida e não julgada pelos entes queridos. Então, por exemplo, se uma pessoa fala: “Eu estou muito triste hoje”. Se você quer ajudar, não menospreza, não minimiza o que a pessoa está sentindo. Você pode perguntar: “O que você está sentindo?”. Deixa a pessoa falar. Esse é um gesto de amor. Às vezes, temos essa dificuldade de conversar, de dialogar, e acabamos cortando o assunto, não deixamos a pessoa falar.

 

A pessoa não quer ficar depressiva, só que isso é uma questão biológica. É igual você querer que um carro ande sem gasolina. Você fica do lado do carro e fala: “Vamos, sobe essa ladeira, e o carro não vai andar”. Não tem como, porque ele não tem serotonina, que é o neurotransmissor da alegria, do bem-estar, que está baixo na depressão. Às vezes, deve estar zerado. Isso é biológico. Essa produção de serotonina tem que ser organizada, com a medicação, com a terapia e com as outras estratégias não farmacológicas. Mas é muito importante que as pessoas tenham em mente que é biológico, é cerebral. Existem milhares e milhares de estudos científicos comprovando isso, inclusive exames de imagens que evidenciam o funcionamento de um cérebro depressivo e o funcionamento de um cérebro sem depressão.

 

Existe uma resistência em procurar ajuda médica?
A ajuda médica só vai ser possível se existir uma rede de apoio. O depressivo está sem energia, ele mal tem energia para fazer suas tarefas diárias. O resto da energia que ele tem gasta para parecer que está tudo bem. Essa rede de apoio que também aprova o tratamento médico é muito importante. Quantos suicídios teriam sido evitados se as pessoas tivessem essa iniciativa de levar a pessoa ao psiquiatra, ao invés de ficar criticando a psiquiatria.
 

A religião pode auxiliar o tratamento?
A religião, a espiritualidade é um fator protetor contra o suicídio. Existem fatores de risco, como a pessoa já ter tentado se suicidar antes. Ela é uma candidata fortíssima a tentar novamente e, às vezes, infelizmente, conseguir. O fator protetor é você ter alguma espiritualidade porque um dos sintomas nucleares da suicidabilidade é a falta de esperança. Então, se eu tenho uma crença, se eu acredito em algo maior, eu já fico menos desesperançoso com o futuro. Isso já dá uma força, a pessoa já consegue ter um pouco mais de resiliência.
 

A pessoa que ameaça não comete suicídio? Isso é um mito ou isso é, de fato, realidade?
Nem sempre a pessoa vai falar, mas, na maioria das vezes, ela fala. A questão é: quem é que vai pagar para ver se é verdade ou não? Você tem que partir do pressuposto de que pode, sim, acontecer. Não só quem está chorando que é suicida. É melhor acolher a pessoa que você ama, acreditar e levar para um profissional. Ele tem como acompanhar e ver o grau da suicidabilidade, porque ela pode estar em risco iminente ou com a ideação, que é um risco menor.


Tem alguma forma de ajudarmos as pessoas?
Quando se entende que a depressão é uma situação que infelizmente está muito presente na vida das pessoas, é necessário abraçar essa causa e vestir mesmo a camisa contra o suicídio. Uma coisa tem que ficar muito clara é que não é normal ficar triste o tempo inteiro. Nós, seres humanos, temos a capacidade de resiliência. Então, tudo que acontece de ruim na nossa vida, nós temos a capacidade de nos fortalecer com aquilo.

 

Não é só em setembro que temos de falar disso. Mas esse é um mês para quem precisa identificar os apoiadores da causa. Se eu sou sua amiga e eu não estou me sentindo bem, vejo que você compartilhou alguma coisa sobre o Setembro Amarelo no Instagram, eu já sei que posso falar com você, porque você não tem preconceito.

 

Não é vergonha você procurar ajuda. Na verdade, é um ato de coragem. Coragem para continuar lutando pela sua vida. E mais, é um ato de amor pelas pessoas que amam você. Esse pensamento de que morrer é a melhor e a única saída é um pensamento da depressão. É um pensamento que a doença coloca na sua cabeça, mas não é a realidade. A realidade é que a vida é maravilhosa e que cada um que está aqui neste mundo tem uma missão a desempenhar e você precisa desempenhar a sua. O que você está passando é temporário, você só precisa de ajuda. Cuidar de você, não é só para você, é por você e pela sua família, pelas pessoas que você ama. Espero que você acredite e saia de uma vez por todas da depressão e volte a viver normalmente, porque a vida é maravilhosa. O normal da nossa vida, mais uma vez, é sermos felizes.