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22/07/2020

A Mãe terra geme em dores de parto (cf. Rm 8,22)

Romper a relação com o próximo e com a terra é também romper a relação com Deus

A Mãe terra geme em dores de parto (cf. Rm 8,22) - Notícias - Arquidiocese de Goiânia

O arcebispo de Goiânia, Dom Washington Cruz, chamou-nos a atenção para um assunto muito importante em artigo publicado no Jornal O Popular, no dia 13 de julho passado. “Proteger o Cerrado, defender a vida!” é o tema do texto em que ele nos exorta: “Em tempos vulneráveis de pandemia, quem provoca incêndios criminosos e obriga as pessoas a encher os seus pulmões de fumaça, ajuda a matar e condena-se para a eternidade”.

A afirmação do arcebispo é justificável, sobretudo neste tempo de pandemia, já que precisamos de ar puro para respirar. Enquanto os números de vítimas da covid-19 só crescem dia após dia no Brasil (mais de 2 milhões de casos confirmados e mais de 76 mil mortes até o fechamento desta edição), não podemos ficar alheios à vida da biodiversidade brasileira, que vem sendo destruída sob nossos olhos. “Os ‘gemidos da irmã terra’ (papa Francisco, Laudato Si’, n. 53), o grito pela vida e a defesa das comunidades indígenas e quilombolas também são causas da Igreja”, exortou, no texto, Dom Washington.

De fato, foi isso que quis o papa Francisco com sua Carta Encíclica Laudato Si’, isto é, não nos deixar ausentes da vida do planeta. “Nesta encíclica, pretendo especialmente entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum” (n. 3). Neste tempo de pandemia ficou evidente para todos também que transformar o mundo requer mudanças que partam de cada um de nós. O Santo Padre também deu atenção a isso em sua encíclica, que foi publicada há cinco anos. “Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas ‘nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades” (n. 5).

Os modelos de produção e de consumo precisam ser revistos, conforme Francisco, e Dom Washington, em seu artigo, denuncia como a natureza vem sendo devastada em nosso país. “Nesse instante, alheias ao tempo da natureza, incansáveis motosserras, abastecidas e aceleradas por um tipo de economia predatória, fazem tombar, em minutos, milhares de árvores centenárias, na querida Amazônia. E isso vem ocorrendo há 13 meses ininterruptos, sem escrúpulos, sem medo, sem limites, sem lei. Atônitos, inquietos e em lágrimas, recebemos de satélites as fotografias cada dia mais estarrecedoras, com imensas florestas devastadas e um triste cenário de morte.”

A destruição está bem próxima de nós, no estado de Goiás, conforme citou o arcebispo. “Também o Cerrado é ferido de morte pelo crime ambiental. Recentemente, no Norte de Goiás, uma das últimas fronteiras do Cerrado preservado, em plena região da comunidade Kalunga, a intrusão de homens, máquinas e correntes devastaram, em poucos dias, mais de mil hectares de Cerrado para produzir soja (O Popular, 05/06/2020)”.

Citando, novamente, a encíclica do papa Francisco, Dom Washington disse que não podemos nos calar porque “o grito pela vida e a defesa das comunidades indígenas e quilombolas também são causas da Igreja.” Cuidar do Cerrado, portanto, é um dever de todos. “Não podemos nos calar diante da destruição implacável do bioma em que habitamos, que é o mais antigo da Terra, é o berço das águas para o Brasil, é um dos que tem a maior biodiversidade do mundo, onde habitam populações tradicionais há séculos (Campanha da Fraternidade 2017, n. 92-97). A destruição da fauna e da flora, o veneno jogado na terra e nas águas, a fumaça das queimadas insanas que estragam a qualidade do ar, o desrespeito às comunidades originárias, a indiferença social aos agricultores familiares, aos extrativistas e aos assentamentos, tudo isso é imoral, fere a vida e ofende a Deus”, frisou, no texto, e continuou. “Como cristãos, desejamos nos unir a todos aqueles que defendem a vida, independentemente de sua cor, etnia, religião, condição social ou opção política. Nossos ‘compromissos ecológicos brotam de nossas convicções’ (papa Francisco, Laudato Si’, n. 64). Toda a criação é obra de Deus. Ao Senhor pertence ‘a terra e tudo que nela existe’ (Dt 10,14). Ninguém pode ter sobre ela a pretensão de posse absoluta, com direitos para destruí-la.”

Por fim, ele salientou que a conversão cristã passa necessariamente pela conversão ecológica, já que ela nos aproxima como irmãos e filhos de Deus. “Como a existência humana é feita de relações intimamente ligadas entre si, quando se rompe a relação com o próximo e com a terra, também se rompe a relação com Deus (Laudato Si’, n. 66). Aos que desejam seguir o caminho de discipulado na fé cristã, tem-se a exigência da ‘conversão ecológica’, que supera a negligência, sente-se responsável pelo bem comum e assume o compromisso intergeracional com a vida, inclusive com a vida dos próximos habitantes que nos sucedem na Terra. Por tudo isso, vamos pôr a mão na consciência! Em tempos de crescente fragilidade da ‘irmã terra’, quem a destrói opõe-se a Deus, Senhor de toda a criação. Que nossa fé seja professada e testemunhada. Pela graça, pela fé e pelas obras sejamos salvos e ajudemos a salvar o mundo, a Terra, os seus biomas, a ‘querida Amazônia’ e o querido Cerrado brasileiro”.

                                                                                                                                                                                                       

O bioma Cerrado

Mas por que o Cerrado brasileiro é tão devastado? Para entender como isso acontece e quando começou a exploração deste importante bioma, entrevistamos o professor da PUC Goiás e pesquisador do Instituto do Trópico Subúmido, Roberto Malheiros. De acordo com ele, o Cerrado começou a ser cobiçado na década de 1970 devido à sua posição geográfica. Apenas a acidez do solo impedia sua exploração. “Com o desenvolvimento das pesquisas, percebeu-se que o solo era muito produtivo e devido à região ser muito plana, por estar no planalto central, é constituída de topografia altamente favorável para a mecanização agrícola, pois os solos são profundos, fator importante para a agricultura”, explicou.

O professor afirmou que a exploração começou naquela década em diante, para fins de produção de grãos e pecuária. “Aos poucos a produção de grãos ocupou a maior parte do Cerrado”, comentou.

Outro elemento importante é que o Cerrado é o segundo maior bioma brasileiro, sendo o primeiro a Amazônia. Do ponto de vista ecológico, faz conexão com todos os demais biomas, exceto com os pampas. O professor destacou que o bioma Cerrado é ponto de equilíbrio para todos os outros e explicou o porquê. “Pela questão topográfica, o Cerrado é constituído de rochas porosas e, por isso, é um grande armazenador de água no Brasil e responsável por toda a hidrografia brasileira.”

 

Importância hidrográfica do Cerrado

100% das águas que mantêm o bioma Pantanal nascem no Cerrado.

50% das águas que abastecem o bioma Amazônia nascem no Cerrado.

80% das águas que abastecem a bacia do Rio São Francisco nascem no Cerrado.

Malheiros também salientou que os períodos secos e chuvosos no bioma Cerrado também contribuíram muito para o planejamento agrícola. “Foi mais um fator que favoreceu a sua ocupação. De forma geral, mais de 60% desse bioma já foi desmatado e alguns de seus ecossistemas têm apenas 20% de sua vegetação nativa.”

A situação, porém, pode ser revertida, segundo o pesquisador. “Felizmente, hoje existem muitos movimentos que apoiam a conservação do Cerrado. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por exemplo, apoia muito a agricultura familiar.” Outro aspecto que tem se mostrado altamente lucrativo, conforme Malheiros, é o uso de recursos naturais e os proprietários já se alertaram quanto a isso. “Hoje, vale muito mais um pequizeiro em pé que derrubado. As leis ambientais também precisam ser cumpridas. Elas existem, mas há fragilidade dos órgãos ambientais no que diz respeito à fiscalização. É preciso intensificar para que haja controle desses ambientes”, confirmou.

É um ponto importante também a recuperação das áreas degradadas, as técnicas de conservação do solo, replantio, mas o professor ressaltou que nada disso é possível se não tiver trabalho de educação ambiental para intensificar a recuperação do Cerrado. Na visão do professor, esses são os mecanismos capazes de estabilizar esse processo e começar agora a recuperação das áreas desmatadas.

Extensão da PUC Goiás se dedica à preservação do Cerrado

A PUC Goiás começou, em 1992, as pesquisas sobre o Cerrado. Criou, neste período, o Instituto do Trópico Subúmido (ITS) que funciona no Câmpus 2 e, desde então, cultiva viveiros e espécies nativas do Cerrado. Possui também um núcleo de compostagem que trabalha com aproveitamento de todos os resíduos orgânicos que eram jogados em áreas impróprias que causavam poluição. O professor Roberto Malheiros comentou que o ITS também oferece cursos gratuitos, ensina como fazer compostagem, produzir mudas e tem um programa de doação de mudas durante eventos que ele promove. Oferece ainda um programa de orientação ao pequeno produtor como recuperação de áreas, revegetação, trabalho intenso nesse aspecto de recuperação e preservação. “Hoje, existe um núcleo específico de educação ambiental juntamente com alunos voluntários que se inscrevem através da Pró-Reitoria de Extensão. Treinamos e oferecemos cursos que auxiliam a comunidade, no sentido de orientar e prestar trabalho de filantropia e extensão. Participam praticamente alunos de todas as áreas porque quando se fala em questão ambiental todos os cursos se encaixam bem, uns com maior abrangência, como biologia, geografia, engenharia ambiental, mas trabalhamos também com zootecnia, agronomia e medicina veterinária, cujos alunos estão diretamente em contato com a natureza e precisam ter consciência acerca da preservação”, concluiu o pesquisador.

Saiba mais no site:

http://www.ucg.br/ucg/institutos/its/site/home/