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27/07/2020

Fé e experiência são as maiores riquezas que podemos absorver dos nossos avós

Celebramos, em 2020, o Dia dos Avós de um modo totalmente diferente dos anos anteriores. A pandemia do coronavírus em todo o mundo nos distanciou fisicamente e a parcela da população acima dos 60 anos é considerada grupo de risco e precisa redobrar os cuidados para se proteger. No Dia dos Avós, que celebramos neste domingo, 26 de julho, fazemos memória aos avós de Jesus, São Joaquim e Sant’Ana. A data é muito especial, embora ainda pouco celebrada no Brasil.

Mas que lições de fé podemos aprender com os avós de Jesus? Essa pergunta tem muito a ver com os nossos próprios avós. E para falar sobre isso e sobre nossa relação com os avós e demais pessoas idosas, neste tempo de pandemia, entrevistamos o padre Arthur da Silva Freitas, sacerdote da Arquidiocese de Goiânia, que atualmente cursa doutorado em Teologia, em Valência (Espanha).

São Joaquim e Sant’Ana

Segundo padre Arthur, toda informação relacionada aos pais de Maria deriva da literatura apócrifa, isto é, dos textos que a Igreja considera inspirados, mas não constam no cânon bíblico. Esses livros têm grande valor histórico e parte do seu conteúdo é considerado verídico. “O Evangelho da natividade de Maria, o Evangelho de pseudo Mateus, e o protoevangelho de São Tiago são onde encontramos informações sobre os avós de Jesus”, revelou.

Nas três obras, há menção sobre os pais de Maria e eles são apresentados como um casal de muita devoção, conforme explicou padre Arthur. “Ana é apresentada como descendente do Rei Davi. Ela e Joaquim não tinham filhos, embora já estivem com idade avançada. Mas Ana, mulher de muita fé, rezava e pedia a Deus que lhe desse filhos”, afirmou. Os textos apócrifos relatam que Joaquim saiu em retiro de oração por 40 dias para suplicar a Deus que desse a ele a graça de ser pai e à sua esposa a graça de ser mãe. De fato, Ana significa graça e o Senhor os atendeu. “Um anjo apareceu a Ana e disse a ela que Deus havia escutado suas orações e que teriam uma filha que seria lembrada por todas as gerações da terra, para sempre. Ela então engravidou e deu à luz a Virgem Maria Santíssima.”

As informações sobre os dois santos, porém, são muito básicas. “O que sabemos são seus nomes, Joaquim e Ana, e um pouco da história relacionada ao nascimento de Maria. Eles eram um casal muito piedoso, mas não tinham filhos, o que era considerado, naquela época, como uma espécie de maldição. Eles rezaram e receberam a graça de Deus. Uma história muito parecida com a de outra Ana, a mãe de Samuel, que podemos encontrar na Sagrada Escritura”, explicou padre Arthur. Além das informações contidas nos textos apócrifos, São Joaquim e Sant’Ana também são venerados desde os primeiros séculos, na Igreja Ortodoxa Oriental.

Os avós de Jesus na história da salvação

Apesar do pouco que se sabe sobre São Joaquim e Sant’Ana, podemos alimentar nossa fé a partir de suas experiências. A importância deles é em referência a Cristo, segundo padre Arthur. “Toda a nossa fé tem por base a revelação de Jesus Cristo. Portanto, tudo aquilo que se refere a Cristo é importante para a nossa fé. Claro que existe uma hierarquia de valores naquilo que toca a nossa fé. Em primeiro lugar, a própria pessoa de Jesus, Deus mesmo, a Santíssima Trindade; depois, aquilo que Jesus ensinou, a sua doutrina; seguido de tudo aquilo que demonstrou com seus atos, continuando com tudo aquilo que está relacionado aos mistérios de sua vida.”

O padre enfatizou que São Joaquim e Sant’Ana fazem parte da história de salvação, pois o nascimento de Jesus foi possível pelo sim de Maria. Ela é um dom de Deus para seus pais, que não podiam ter filhos, e ela foi concebida sem pecado original no seio de Ana. “Jesus é descendente direto de São Joaquim e Sant’Ana. Eles são seus avós, é família de Jesus. Para a nossa fé é importante a figura desses dois porque, graças a santidade, piedade e súplica que dirigiram a Deus, puderam ser instrumentos do Senhor neste processo histórico da encarnação e de envio do Filho de Deus para a salvação dos homens”, explicou.

Santos, amigos de Deus

A vida de oração e perseverança de São Joaquim e Sant’Ana é, sem dúvida, a lição mais importante desses dois santos em nossa vida de fé. “Aproximar-se de Deus por meio da aproximação aos santos é um caminho seguro porque eles estão próximos a Deus, estão sempre nos conduzindo ao Pai. Esses dois santos têm a nos oferecer a conscientização da importância dos anciãos, das pessoas idosas, no processo da transmissão da fé.” Padre Arthur destacou ainda que “ter devoção a São Joaquim e Sant’Ana é ter o coração atento aos avós pela experiência da vida, experiência provada no sofrimento, pela sabedoria adquirida no dia a dia, que nos indica um caminho seguro não só das coisas eternas, mas das coisas práticas da vida. Quando um avô ou avó diz: ‘olha não faça isso, por este caminho é melhor’, eles estão falando com amor e com base na sabedoria adquirida. Eu acho que isso, hoje, tem nos faltado muito. Que São Joaquim e Sant’Ana ajudem seus devotos a ter os ouvidos atentos e o coração inclinado aos avós, que detêm a sabedoria pela experiência adquirida”.

Respeito e amor aos nossos avós

“Quão importantes são os avós na vida da família para comunicar o patrimônio de humanidade e fé essencial para toda a sociedade”. Foi com essa frase do papa Francisco, publicada em seu Twitter, que o padre Arthur respondeu quando perguntado sobre a importância dos avós na família e na educação dos netos.

Os avós, como diz o papa, são importantes para a vida da família porque eles comunicam o patrimônio de humanidade e de fé que são tão essenciais para as sociedades. O sacerdote mencionou que as sociedades mais organizadas, que progridem mais, que crescem mais, são aquelas que valorizam os idosos. Isso na fé cristã é essencial: o cuidado, o amor, a atenção e o respeito à pessoa idosa.

O amor e o respeito aos avós passam pela sua história de vida, uma vez que, por sua experiência, os mais jovens conseguem fazer as escolhas mais acertadas e a enxergar horizontes com mais clareza. “Quando nós celebramos São Joaquim e Sant’Ana e, no mesmo dia, os avós, nós estamos celebrando o dom da vida que recebemos deles. Temos que nos lembrar que a casa onde vivemos, eles viveram; a rua onde andamos, eles andaram; as lutas que nós lutamos, eles também lutaram e lutam até hoje. A vida, tudo o que nós passamos, eles também passaram e estão passando conosco.” A ideia da cultura do descarte, na visão do padre, é ilusão. “É um grande engano a visão de que só os jovens podem aproveitar a vida e que somente eles são o futuro da sociedade. Em outra ocasião, o papa Francisco disse também em um congresso para idosos que eles são também o presente e o futuro da Igreja. Até mesmo porque ser idoso é o futuro de toda pessoa humana e graças àqueles que chegam a essa fase da vida. Para nós é um dom, uma alegria. Infelizmente, nós estamos vivendo um tempo de um consumismo e de um utilitarismo em que a pessoa idosa está sendo deixada de lado, está sendo colocada de escanteio, como se fosse para o nosso modo de vida um peso. E agora, diante da situação que vivemos, sobretudo da pandemia, vemos a consequência disso. Os idosos são os mais atingidos, os que mais sofrem, os que mais sentem este momento tão difícil”, alertou.

Cuidados em tempos de pandemia

Manifestar presença permanente e atenção aos nossos avós é o modo que podemos desenvolver para estarmos próximos deles neste tempo de pandemia. Padre Arthur lembrou que os meios de comunicação nos possibilitam fazer isso de forma não presencial, para que eles não corram riscos. “Muitos estão realizando reuniões familiares, mas a mensagem para todos nós neste momento é: cuidado com essas reuniões familiares porque o presente de aniversário que você pode dar ao seu avô são 40 dias em uma UTI ou talvez até a morte. Por isso, precisamos considerar com muita caridade a situação difícil que estamos, sem nunca deixar de manifestar o carinho, o respeito e a admiração que temos por eles. Os avós merecem de nós tudo o que temos, tudo o que podemos fazer por eles, ainda que isso signifique, hoje, uma certa ausência física, o que não significa jamais ausência espiritual e afetiva.”

“Meus avós, pais que moldaram meu caráter”

Manoel Victor Moreira, 22 anos, carrega consigo o nome do seu avô, Manoel Moreira da Silva, 85 anos, que é casado com sua avó, Geny Borges da Silva, 75 anos. Seus avós o criaram desde que nasceu e até hoje eles moram juntos. Para ele, o casal é muito importante em sua vida. “Meus avós representam mais que uma simples relação familiar, são verdadeiros pais com quem tive o privilégio de crescer e aprender, desde o primeiro dia da minha vida. São guias iluminados que irradiaram para mim sabedoria e moldaram meu caráter”, afirmou.

Este tempo de pandemia levou a família a redobrar os cuidados, preservando os avós. Para isso, eles se organizaram como puderam para que os idosos não sejam contaminados. Esse é o lado negativo. O positivo é que o momento de dificuldade trouxe mais aproximação entre eles. “Neste momento de pandemia, em que as relações ficaram mais próximas, sinto que houve um fortalecimento de sentimentos até então velados pela rotina profissional. Voltamos a almoçar em família, relembrar momentos e até auxiliar uns aos outros nas atividades profissionais. Com o objetivo de preservar a saúde deles, foi necessário evitar ao máximo a contaminação. Então, estabelecemos que durante a pandemia eu ficaria encarregado de sair, somente para o necessário”. Neste Dia dos Avós, Manoel só tem a agradecer por tudo o que seus avós representam. “Dedico a meus avós dois breves versos do poema Meu Destino, de Cora Coralina: ‘Nas palmas de tuas mãos, leio as linhas da minha vida’. Que São Joaquim e Sant’Ana possam interceder pela saúde de todos os avós do Brasil.”

Por: Fúlvio Costa