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04/12/2017

Liberdade! Sim, mas qual?

Ideologia de gênero...ainda outra reflexão

Liberdade!  Sim, mas qual? - Vida Cristã - Arquidiocese de Goiânia

Um dos elementos centrais da ideologia de gênero é a defesa de que cada pessoa, no campo da sexualidade, pode e deve livremente “inventar-se a si mesmo”, escolhendo a sua identidade sexual, com a possibilidade de refazer a escolha ilimitadamente e reinventar-se sempre, aplicando uma compreensão líquida da autoidentificação sexual. Esse mesmo princípio, com matizes próprios, está presente em certo número de outras ideologias que, como a de gênero, militam a favor da revolução no campo das questões relativas à sexualidade e às relações entre homem e mulher, tentando subverter a ordem proposta até então. Vê-se, portanto, que um dos elementos centrais de tais ideologias se apoia em uma específica compreensão de liberdade. Qual é essa compreensão?

Olhando a história da humanidade, vemos que, de modos e intensidades distintos, o homem sempre procurou defender a sua liberdade. Essa bandeira, porém, passou a tremular com contornos bastante particulares a partir do renascimento, do iluminismo e da idade moderna. Esses movimentos filosófico-culturais, que se interpenetraram e se sucederam a partir de meados do século XIV, propuseram uma mudança do eixo existencial em direção a um ideal humanista, racionalista e naturalista, em detrimento da compreensão teocêntrica do mundo, do homem e da sua relação com Deus. A exaltação do ser humano e da sua razão foi se configurando, pouco a pouco, como um dever de emancipar o homem da sua submissão a Deus e dar a ele a liberdade que merecia.

A liberdade do homem passou, então, a ser compreendida como expansão absoluta do “ego”, que tomou o lugar de Deus. Liberdade seria, portanto, a autonomia absoluta do sujeito ante qualquer elemento externo a si mesmo, qualquer autoridade que não seja o próprio “eu” e qualquer ordem objetiva da realidade que não seja o próprio desejo. Em suma, liberdade passou a ser “fazer o que se quer” e cada ser humano livre é deus de si mesmo.

Apesar de exaltada, essa compreensão de liberdade causa uma primeira dificuldade. Se todos são uma espécie de deus e o “ego” de cada um deve poder expandir-se absolutamente, a vida em sociedade passa a ser uma guerra dos deuses, um conflito constante de “egos” em expansão absoluta e ilimitada. Uma verdadeira tragédia! Para resolver esse problema, com a consciência de que tal ideia de liberdade é impraticável, tenta-se adotar, mediante contrato velado e aceito por todos, uma lei apaziguadora: “minha liberdade termina onde começa a do outro”. Essa solução contratualista mostra que, além de ser impraticável, essa ideia de liberdade é falsa, pois torna evidente que ela tem limites, mesmo que seja defendida como ilimitada.

Dessa solução contratualista nasce outra dificuldade. Como ela não muda a compreensão de liberdade e nem tira do homem a ideia de que ele é um deus livre para fazer o que quer, na prática ainda temos a guerra dos deuses. Isso se dá, porque ninguém  quer perder o seu posto e sua liberdade e, portanto, quem é mais forte passa a se impor sobre os demais, em nome da sua liberdade, ao mesmo tempo que passa a impor, em nome da sua liberdade, a perda dela aos outros. Basta nos lembrar do que aconteceu durante a Revolução Francesa, cujo lema era: “Liberdade, igualdade e fraternidade”. Os revolucionários franceses, que incarnavam as ideias que apresentamos, defendiam a liberdade, sim, mas para quem pensava como eles. Para quem os contradizia, cabia a prisão e o enforcamento.

Curiosamente, é o mesmo que acontece com as ideologias atuais ligadas à revolução sexual, a de gênero e outras: seus fautores apregoam a liberdade, mas só para quem pensa com eles. Os demais são “...fóbicos”, “...chistas” e outros títulos mais. Por isso, defendem a liberdade deles, e os que não concordam que sejam condenados. O mesmo se viu em certas manifestações artísticas recentemente, em museus e fora deles. Defendiam a liberdade de expressão, mas ninguém podia livremente discordar, senão era chamado de fascista. É o Olimpo que se levanta e tenta-se impor sobre os mortais. Isso não é liberdade!

Vê-se, portanto, que a ideia de liberdade entendida como “fazer o que se quer” é falsa e serve apenas para que alguns grupos garantam, somente para eles mesmos, a possibilidade de exigir direitos de subverter uma ordem objetiva da realidade que eles não desejam seguir. Sim, o ser humano é livre, e devemos defender sua liberdade. Sim, mas qual liberdade? 

Quando afirmamos que o homem, é livre é porque reconhecemos que ele pode, por si mesmo, conduzir a sua existência. Ele é sujeito da sua própria vida e pode autodeterminar-se para um fim. Mas isso só é possível porque o homem é um ser racional, isto é, capaz de refletir sobre a realidade que o cerca e compreender o que é conforme à verdade e ao bem. Firmada em uma ordem objetiva que sua razão conhece a pessoa pode julgar como boa ou má uma escolha e, por esse juízo, determinar sua existência. Esse bem ele não o inventa porque quer, mas o contempla, o conhece, a ele adere ou não. Daqui é que se pode dizer que o homem é livre e responsável pelo que faz, pois, ponderando sobre o que deve escolher, tendo uma ordem objetiva como paradigma, ele responde pela escolha que, livremente, fez de promover ou não o bem.

A liberdade é, portanto, a capacidade que o homem tem de autodeterminar sua vida colocando em prática o bem, conhecido com base em uma ordem objetiva existente, graças às suas capacidades racionais. Por isso, só se pode falar de liberdade tendo esse referencial objetivo de bem, de verdade. O homem é livre sim, mas a liberdade verdadeira é a capacidade que ele tem, por sua inteligência, de governar a sua vida colocando em prática o bem. Assim ele se constrói, promovendo o seu bem e o bem comum. É essa liberdade que devemos defender: a liberdade de fazer o bem objetivo, porque é o bem, um bem que constrói a pessoa e a sociedade.

No caso das questões relativas à sexualidade, o senso comum humano e as ciências defendem que há uma ordem objetiva. Essa ordem objetiva, provada e comprovada ao longo dos anos e, atualmente, corroborada pela biologia, psicologia, medicina e outras ciências, com as mais desenvolvidas técnicas e raciocínios, nos mostra que o ser humano nasce homem e mulher, do ponto de vista físico e psicológico. A construção da identidade sexual está, portanto, fundada na sua natureza sexuada e é consolidada com os aportes educativos e relacionais vividos, prioritariamente, dentro da família. O bem está, portanto, em respeitar essa verdade e é livre quem a respeita.

No âmbito da sexualidade, se o homem deseja ser verdadeiramente livre, só poderá sê-lo se viver segundo a ordem da sua natureza. Senão, ele volta para o capricho do “ego” que se expande absolutamente, afirmando ser livre só para fazer o que quer. Vivendo assim, no fim, se ele chegar lá, colherá os maus frutos de sua falsa liberdade e obrigará as gerações futuras a amargar as consequências deles. Será como o elefante que, afirmando ser um rato, exige o direito de estar dentro de uma loja de porcelana!

 

Pe. Luiz Henrique Brandão de Figueiredo
Reitor do Seminário Menor Arquidiocesano São João Paulo II